- Tua vida tem sido enganar Chronos, amar Kairós -
Uma das coisas que mais me fascinam em ler é isso: você nunca sabe pra onde um livro vai te levar.
A gente sabe, mais ou menos, o básico. Que vai conhecer lugares, se apegar a personagens, sentir raiva de alguns, vontade de abraçar outros, talvez fechar o livro em silêncio em algum momento. Mas o tipo de lugar pra onde ele te leva… isso quase nunca dá pra prever.
Eu comecei Oração para desaparecer, da Socorro Cioli, sem expectativa nenhuma. Não tinha visto resenha, não tinha escutado ninguém falar muito além do hype, não sabia que tipo de história ia encontrar ali. Era só mais um livro.
Até que, em algum ponto da leitura, apareceu uma frase:
“Tua vida tem sido enganar Chronos, amar Kairós.”
Na hora eu entendi que aquilo queria dizer alguma coisa. Não entendi o quê.
Eu sempre tive uma relação meio estranha, meio íntima com a ideia de tempo. Gosto de teorias, gosto de pensar sobre isso, gosto até de inventar meus próprios jeitos de organizar o mundo, como a ideia de que existe um dia fora do tempo, o 25 de julho. Então quando li “Chronos” e “Kairós”, eu senti que ali tinha uma porta. Fui pesquisar.
Descobri que Chronos é o tempo que mede, que conta, que passa, que cobra, que envelhece a gente. O tempo do relógio, do calendário, dos prazos, do “já devia”.
E que Kairós é o outro tempo. O tempo do instante certo. Do momento que não se mede. Do encontro que muda tudo. Da decisão que só faz sentido porque aconteceu exatamente ali.
“Enganar Chronos” é tentar driblar o tempo que exige e empurra. Fingir que ainda dá. Fingir que não é agora. Fingir que não tá passando.
“Amar Kairós” é se apaixonar por momentos. Por instantes que não prometem futuro, mas prometem presença. Por escolhas que não cabem numa linha do tempo organizada.
Talvez a coisa mais bonita disso tudo seja perceber que eu não fui procurar essa reflexão. Eu tropecei nela. Foi o livro que me levou até aí.
E é por isso que eu continuo lendo. Porque às vezes você pega uma história sem saber nada sobre ela e, no meio do caminho, acaba encontrando uma nova forma de nomear alguma coisa que sempre viveu em você.


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