- a melhor escolha foi me escolher hoje -
Começou com um passo meu pequeno, quase tímido, mas que carregava uma decisão inteira: estar comigo. Não apenas sozinha, mas presente.
O ar do shopping tinha aquele frescor artificial que mistura ar-condicionado com o burburinho distante de vozes, o som de passos apressados e o brilho frio das luzes. Eu caminhei sem pressa, como quem passeia dentro de si mesma.
O primeiro abraço do dia veio em forma de um copo pequeno, gelado, do Seu Mané. O rosa suave do morango se encontrava com o branco cremoso do coco, enquanto o chocolate belga fechava o trio num aconchego gostoso. A colher tocou os lábios e, por um instante, tudo parou. O sabor tinha a calma de uma tarde sem compromissos e a ousadia de um domingo que se inventa. Era novidade, mas com o conforto de algo que parecia já me conhecer.
Entre uma colherada e outra, meus olhos encontraram cores que não vinham do sorvete, mas das paredes. A exposição me puxou para dentro como quem abre uma janela e deixa entrar o vento: guarda-chuvas vermelhos, azuis, verdes, um mar de passos apressados pintados em óleo, com gotas que pareciam escorrer de verdade. Mais adiante, o entardecer laranja e azul abraçava a silhueta de um casal sobre a Ponte Hercílio Luz minha ponte, minha cidade, com um realismo tão delicado que quase dava pra sentir a brisa atravessando os cabelos.
Depois, fui para uma segunda exposição, em outro ponto do shopping. Lá, as paredes exibiam retratos vívidos músicos de jazz em meio a apresentações cheias de energia, com saxofones, teclas e contrabaixos vibrando na tela. Ao lado, figuras icônicas ganhavam vida: o olhar intenso de Van Gogh, a imponência sábia de Dumbledore, a melancolia sutil de Edward Mãos de Tesoura. Cada pincelada parecia resumir não apenas a imagem, mas a personalidade inteira de quem estava ali representado, como se o artista tivesse capturado, em cores e gestos, a essência de cada um.
E, como cereja do bolo, entrei sozinha numa sala de cinema para assistir Uma Sexta-feira Mais Louca Ainda. Nostalgia pura, riso fácil, lembranças da adolescência que aqueceram o peito. Naquele instante, eu não estava apenas vendo um filme; eu estava me encontrando.
Hoje foi um daqueles raros dias em que a escolha mais importante que eu fiz foi me escolher. Sair de casa. Sentir o mundo com os meus próprios olhos, pés e mãos. O sorvete, as cores, as músicas que só existiam nas telas, o filme que trouxe memórias… tudo foi me trazendo de volta para mim. Voltei para casa mais leve, mais viva. E percebi que eu precisava disso mais do que imaginava. Entre as cores, os sabores e as histórias, encontrei espaço para respirar, silenciar o mundo e ouvir o que eu tinha a me dizer.
Hoje eu me lembrei de que me escolher é um ato de amor. Voltei para casa com o coração mais leve, os olhos mais brilhantes e aquela sensação rara de estar viva de verdade inteira, minha.
Se bateu ai como bateu aqui... senta, te conto 😉

Lendo esse texto, eu achei que estava lá contigo, tendo as mesmas sensações, ouvindo e vendo as mesmas coisas. Mergulhei fundo no seu olhar e só permiti me escolher, também.
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