- o peso de chegar tarde -




Eu sempre tive a sensação de que crônicas eram pequenos pedaços de vida transformados em literatura. Hoje escrevi a minha primeira.
Nasceu da minha inquietação, do medo de estar atrasada para tudo. Mas, no processo, descobri que talvez a vida não tenha esse relógio que a gente insiste em seguir.


Havia uma mulher que, aos 30 e poucos anos, carregava dentro de si uma sensação constante de atraso.
Não importava o quanto se esforçasse — sempre parecia que havia perdido o momento certo, que a vida estava um passo à frente e ela corria atrás de algo invisível. Via amigos casando, mudando de país, tendo filhos, crescendo nas carreiras. Ela também tinha conquistas, mas por dentro sentia-se como alguém que chegou tarde a uma festa e ficou parada na porta, sem saber se ainda fazia sentido entrar.

Cansada desse peso, decidiu passar uns dias em um vilarejo pequeno, daqueles onde o tempo parece caminhar mais devagar.
Na primeira manhã, ao sair para andar pelas ruas de pedra, encontrou um senhor varrendo a calçada. O som das folhas sendo empurradas pela vassoura se misturava ao canto distante dos galos e ao cheiro doce do pão assando em alguma padaria próxima.
Ele a cumprimentou, notando sua expressão carregada.
— Você parece apressada — disse.
Ela soltou uma risada curta, meio amarga.
— O problema é esse. Eu tô sempre atrasada, mesmo quando não tenho pra onde correr.

O senhor apoiou o corpo no cabo da vassoura e perguntou:
— Atrasada em relação a quê?
Ela abriu a boca para responder, mas nada saiu. O silêncio pairou. Nunca tinha formulado essa pergunta para si mesma.

Mais tarde, de volta à pousada simples onde estava hospedada, resolveu preparar café em um pequeno fogareiro de chama azulada. Colocou a chaleira de metal, mas a água parecia demorar uma eternidade para ferver. Ela tamborilava os dedos na mesa, o olhar fixo nas bolhas que se formavam devagar demais.
Murmurou, impaciente:
— Até a água sabe o tempo dela, menos eu.

A dona da pousada, uma mulher de cabelos grisalhos e sorriso calmo, ouviu e respondeu, sem olhar diretamente para ela:
— E se o problema não for você estar atrasada, mas tentar correr num relógio que nunca foi seu?

A frase ficou suspensa no ar, impregnando o cheiro do café fresco que finalmente subia.
Naquela noite, deitada na cama de lençóis ásperos, escutou os grilos lá fora e o vento balançando as folhas. Não tentou silenciar os pensamentos, como costumava fazer. Apenas os deixou vir — desordenados, contraditórios, barulhentos.
Percebeu que vivia como quem corre atrás de uma estação de trem, acreditando que sempre perdeu a partida. E que passava mais tempo medindo o passo dos outros do que sentindo o chão sob os próprios pés.

No dia seguinte, saiu para caminhar novamente. O sol nascia preguiçoso por trás das colinas, tingindo de dourado as janelas das casas. O mesmo senhor estava lá, varrendo sua calçada, como se fosse parte da paisagem. Quando a viu, sorriu com a simplicidade de quem já entendeu algo que não precisa ser explicado.
— Olha — disse ele —, o sol não acorda na mesma hora das estrelas. Cada coisa tem sua hora de brilhar. Só fica tarde quando a gente esquece que a vida não é corrida, é caminho.

Ela ficou parada, deixando as palavras penetrarem devagar. O cheiro de terra úmida, o som distante de uma carroça, a brisa fria da manhã — tudo parecia dizer a mesma coisa: havia tempo. Sempre havia.

Antes de ir embora, naquela mesma tarde, abriu o caderno que carregava vazio há semanas. Pela primeira vez, não tentou organizar nem forçar nenhuma frase perfeita. Apenas escreveu:
“Talvez eu não esteja atrasada. Talvez eu só precise aprender a andar no meu próprio tempo.”

E, ao fechar o caderno, percebeu que, pela primeira vez em muito tempo, não havia pressa.


Essa foi a primeira vez que me permiti transformar essa angústia em palavras. Talvez amanhã eu volte a sentir que estou atrasada de novo. Mas agora sei que, ao menos por um instante, consegui ouvir meu próprio tempo

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