- ontem à noite eu chorei -
Ontem à noite eu chorei.
Mas não foi um choro qualquer.
Foi um choro daqueles inteiros, que vem sem pedir licença, que atravessa.
Chorei de saudade.
Não de uma pessoa, necessariamente. Ou talvez sim.
Chorei de saudade de mim.
É que ninguém conta pra gente que no processo de se conhecer ou se reconhecer a gente também se despede.
E nem sempre só do que era ruim.
Às vezes, a gente precisa deixar ir partes boas também.
Partes da gente que eram alegres, bobas, intensas. Que eram espontâneas. Que dançavam sem pensar. Que acreditavam mais.
Ontem caiu a ficha: amadurecer também é perder.
E isso dói.
Porque no meio do caminho, entre tanta tentativa de entender quem eu sou, de me escutar mais, de mudar o que já não cabe…
Eu deixei para trás versões de mim das quais eu gostava.
E tive saudade.
Saudade de coisas simples que me faziam sorrir. Saudade de memórias com pessoas que já passaram e já foram.
Daquelas que, em algum momento, me disseram: “Aproveita agora. Vive essa experiência. Ela é só tua.”
E a gente até vive. No momento a gente vive.
Mas aí passam dois, três dias ou nem isso
e a vida volta a gritar.
E a gente volta pro piloto automático.
E se perde de novo.
Mas tudo bem.
Ninguém avisou que o processo seria gentil.
Ninguém disse que se reconstruir seria leve.
Na verdade, ele rasga.
Machuca.
Te faz questionar se você não está, de novo, no mesmo lugar de antes.
Só que tem uma coisa:
Por mais que não venha com manual, o processo de crescer tem algo de bonito.
Ele não vem com flores vem com socos no estômago
mas, em algum ponto, a gente entende.
Talvez eu esteja mais sensível. Talvez seja o TPM.
Mas essa sensibilidade me lembrou que sou humana.
E ser humana é sentir.
É se despedaçar de vez em quando.
É chorar de saudade de si mesma.
É parar no meio do caminho pra lembrar que, mesmo entre tantas perdas, existe força em continuar.
Seja como for, ontem eu chorei.
E hoje, eu escrevi.
Porque escrever me reconecta.
Me devolve, pedacinho por pedacinho, pra mim mesma.
E talvez só talvez isso também possa te lembrar de alguma parte tua que você sente falta.
Se for o caso... senta. Te conto.

E o que a impede de voltar a ser as partes boas que já foi um dia?
ResponderExcluirOu será que realmente conseguimos voltar a ser quem somos? Mesmo nas coisas que gostamos que tenhamos sido?
Digo isso, porque, a água que corre no rio nunca mais será a mesma. E por mais que tenha sido bom algum tempo, alguma fase, algum instante nosso, não viveremos como da primeira vez, pois esse momento foi único e se o repetisse hoje, ou em qualquer outro tempo, você já teria uma prévia. Então teria um spoiler daquele momento, já não sendo mais tão autêntico como foi da primeira vez.
O que foi bom, foi. O que foi ruim, também. Nada volta. Mas podemos criar novos momentos bons, felizes, agradáveis e acolhedores que já tivemos ou fomos um dia.
A caminhada segue, mesmo que mudemos o caminho: uma, duas ou tantas vezes forem necessárias! "Keep walking".