- sobre dias, paginas, filme e principalmente o olhar -

 




Às vezes eu gosto de pensar na vida como uma coleção de pequenas cenas. Algumas parecem banais, outras nos atravessam de um jeito inesperado, mas todas deixam marcas. Essa semana foi assim para mim: cheia de detalhes que poderiam passar despercebidos, mas que, quando olho com calma, se transformam em algo maior.

Quero te contar sobre três dias que guardo comigo como se fossem uma espécie de trilha sonora: na terça-feira, um instante no centro de Floripa; na quarta, o início de uma leitura que já virou uma das minhas preferidas; e na quinta, um filme em que nada acontece e tudo acontece ao mesmo tempo.

E ai, senta que eu te conto.


Terça-feira: O centro pulsando em mim

Na terça-feira, saí pelas ruas do centro de Floripa e tirei a foto que você vê aqui. À primeira vista, pode parecer só mais um fim de tarde chuvoso, com carros enfileirados no semáforo vermelho. Mas não foi só isso.
Você já reparou em como a chuva deixa tudo mais intenso? O asfalto brilhava como se fosse um espelho, refletindo os faróis e o vermelho das lanternas. Parecia que a cidade inteira estava pintada em tons quentes, mesmo sob o céu nublado.

E havia movimento por todos os lados: guarda-chuvas se abrindo e fechando, pessoas apressadas tentando se proteger da água, o mural colorido no prédio estampando um rosto entre flores e ondas. Foi nesse instante que senti que o cotidiano tem muito mais poesia do que a gente costuma admitir. O centro pulsava. Eu pulsava junto.

Não era só uma rua qualquer. Era quase como se a cidade tivesse me dado um presente: um instante para parar, respirar e perceber que até na pressa existe beleza. Você também sente isso, às vezes? Como se o caos tivesse ritmo próprio, quase uma música escondida na multidão?


Quarta-feira: A natureza da mordida

No dia seguinte, quarta-feira, comecei a leitura de A natureza da mordida, da Carla Madeira. E como explicar o impacto de um livro que, mesmo sem eu ter terminado, já sinto que é um dos meus preferidos?

Carla tem essa habilidade de escrever de um jeito que a gente não lê apenas com os olhos, mas com a pele. Cada frase parece atravessar, cada detalhe carrega uma densidade que exige presença. A narrativa se divide entre a voz da Biá e da Olívia,  duas perspectivas que se entrelaçam e nos conduzem para dentro de um universo de temas que eu amo e, ao mesmo tempo, me dão medo.

Ela fala de desejo, de corpo, de instinto. Mas fala também de fragilidade, de escolhas, daquilo que a gente carrega por dentro e raramente tem coragem de confessar. É como se o livro me olhasse de volta e dissesse: "e você, como lida com as suas sombras?"

Ler A natureza da mordida é como abrir uma ferida, mas também é como descobrir que dentro dela pode existir beleza. Não é só literatura. É quase um convite a se reconhecer em cada linha, mesmo que doa.

Você já viveu isso com um livro? Aquela sensação de que ele não apenas fala sobre personagens, mas sobre você mesma, de um jeito que te deixa vulnerável?


Quinta-feira: Dias perfeitos

E aí chegou a quinta-feira. Escolhi assistir ao filme Dias perfeitos. E, diferente do livro, aqui nada acontece e ao mesmo tempo, tudo acontece.

É um filme que não grita, não corre, não tenta te prender com excessos. Ele só mostra. O cotidiano mais simples: acordar, trabalhar, dirigir, observar o mundo. E ainda assim, cada detalhe é transformado em um momento de contemplação. A luz atravessando a janela. O vento balançando as folhas. A água caindo na pia.

No começo, parece estranho. Quase como se você quisesse que algo mais "grandioso" acontecesse. Mas depois percebe que a grandeza já está ali, escondida nas pequenas coisas. Que talvez o segredo da vida esteja em prestar atenção.

E sabe o que mais me tocou? A sensação de que o silêncio também pode ser companhia. Que viver não é sempre sobre grandes conquistas, mas sobre a delicadeza de perceber o mundo ao redor.

Você também já sentiu isso? Que o extraordinário se esconde no que há de mais banal?


Um fio que costura tudo

Agora, olhando para essa semana, eu vejo como tudo se conecta:
A foto do centro de Floripa me lembrou que até no caos existe beleza.
O livro de Carla Madeira me lembrou que até nos medos existe poesia.
E o filme Dias perfeitos me lembrou que até no silêncio existe vida.

Tudo é uma questão de olhar. Do jeito como escolhemos enxergar o que está diante de nós, seja uma rua molhada, um livro que escancara nossas feridas ou um filme que ensina a desacelerar.

No fundo, talvez a vida seja mesmo isso: encontrar harmonia entre o barulho e o silêncio, entre o medo e a coragem, entre o caos e a calma.

E eu me pergunto e te pergunto também: será que não é justamente nesses contrastes que mora a beleza de estar vivo?

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