- o meu comer, rezar, amar..
Há alguns meses eu assisti novamente ao filme Comer, Rezar, Amar.
Na época, pensei que entendia a protagonista. Hoje percebo que não entendia nada.
Eu assistia àquela história imaginando que a crise dela era uma escolha. Uma pausa planejada. Uma jornada romântica de autoconhecimento com passagem comprada e roteiro definido. Agora vejo de outro jeito.
Existe uma diferença enorme entre decidir parar e simplesmente descobrir que a vida parou você.
Estou desempregada desde outubro de 2025. Estamos em junho de 2026.
O tempo passou rápido demais e devagar demais ao mesmo tempo. Os dias se misturam. As semanas desaparecem. E, em algum momento desse processo, comecei a sentir que tinha desaprendido a ser quem eu era.
No filme, tem um conceito que os italianos vivem sem culpa: dolce far niente. A doçura de não fazer nada. Eu penso nessa frase e não consigo encontrar nada de doce no meu não fazer nada. O meu parece mais um vácuo do que uma pausa.
Passei a vida inteira trabalhando com atendimento ao cliente. Telemarketing. Suporte online. Resolver problemas. Conversar com pessoas. Encontrar respostas. Mas depois da demissão aconteceu algo estranho: parece que tudo aquilo deixou de fazer sentido. Não porque eu não saiba mais fazer.
Talvez porque eu simplesmente não queira mais.
O problema é que descobrir o que você não quer não significa descobrir o que quer.
No filme, Liz fala que queria o que os gregos chamavam de kalos kai agathos, o perfeito equilíbrio do bom e do belo. Eu entendo esse desejo de um jeito que nunca entendi antes. Não é ganância. É a sensação de que você passou tanto tempo sobrevivendo que esqueceu de perguntar se estava vivendo.
Recentemente recebi dois diagnósticos: TDAH e depressão.
Ainda estou tentando entender o peso dessas palavras.
Parte de mim sente alívio, como se alguém finalmente tivesse acendido a luz em um cômodo escuro onde eu vivi por anos. Outra parte sente luto. Porque é impossível não revisitar a própria história e pensar em quantas coisas poderiam ter sido diferentes se eu soubesse antes.
Penso muito na cena do Augusteo. Liz sentada diante de um mausoléu que já foi o monumento mais grandioso do Império Romano e virou ruína. Ela escreve: "Todos nós queremos que as coisas continuem iguais. Nos contentamos em viver na miséria porque temos medo da mudança, de ver as coisas desabarem."
Eu me reconheço nisso. Por quanto tempo me contentei em viver dentro de algo que não cabia mais em mim, por medo de desmoronar?
E então ela conclui: "A ruína é um presente. A ruína é o caminho para a transformação."
Ainda estou tentando acreditar nisso. Ainda estou no meio da ruína. Mas guardo a frase como uma promessa que o futuro ainda não cumpriu.
Ainda estou digerindo tudo.
Ainda estou tentando separar o que sou do que os diagnósticos explicam. Ainda estou tentando entender quais sonhos continuam sendo meus e quais eram apenas expectativas que fui carregando pelo caminho sem nunca ter escolhido carregar.
No meio disso existe uma frase que me assombra:
"Sou uma aspirante a escritora que não sabe escrever."
Eu sei que ela não é totalmente verdadeira. Talvez nem um pouco. Mas é assim que me sinto quando encaro a página em branco, como uma fraude tentando se convencer de que pertence a um lugar onde nunca chegou de verdade.
Ao mesmo tempo, existe uma ironia curiosa nisso tudo.
Sei escrever o suficiente para descrever a minha própria confusão.
Sei escrever o suficiente para registrar o medo.
Sei escrever o suficiente para admitir, em voz alta, que estou perdida.
Talvez a escrita não esteja na ausência das dúvidas. Talvez ela exista justamente dentro delas.
Hoje não tenho respostas.
Não sei qual caminho quero seguir. Não sei como será o próximo capítulo. Não sei quanto do meu cansaço vem da depressão, quanto vem das circunstâncias e quanto vem simplesmente do fato de estar atravessando uma mudança que ainda não tem nome.
Mas tem uma outra frase do filme que fica comigo: "Olhe o mundo através do seu coração." Não pelo medo. Não pela lógica do que deveria ser. Pelo coração.
Estou aprendendo a fazer isso. Devagar. Com tropeços.
Mas estou começando a aceitar uma possibilidade desconfortável: talvez eu não precise descobrir tudo agora.
Talvez este seja o meu próprio Comer, Rezar, Amar.
Sem viagem para a Itália.
Sem retiro espiritual em Bali.
Sem grandes revelações cinematográficas.
Apenas uma mulher sentada diante da própria vida, tentando reaprender quem ela é quando tudo aquilo que a definia deixa de funcionar.
E talvez isso já seja uma jornada.
Talvez estar perdida não seja o oposto de estar a caminho.
Talvez seja exatamente o começo.



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